Formação fortalece organizações da Rede APIAM e amplia capacidade de gestão, planejamento e incidência dos povos indígenas do Amazonas

Fortalecer as organizações indígenas para que atuem com cada vez mais autonomia, capacidade de gestão e incidência política foi o principal objetivo da Oficina de Planejamento Organizacional da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM), realizada nos dias 23 e 24 de julho, em Manaus. A atividade reuniu lideranças e representantes das organizações que integram a Rede APIAM em um espaço de construção coletiva, troca de experiências e definição de estratégias para fortalecer a atuação nos territórios e consolidar o trabalho em defesa dos direitos dos povos indígenas do Amazonas.

Participaram da formação representantes do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (MEIAM), do Conselho Geral dos Povos Sateré-Mawé (CGPSM), da União dos Povos Indígenas Munduruku e Sateré-Mawé (UPIMS), da Organização dos Povos Indígenas da Calha do Juruá (OPIJU), da União dos Povos Indígenas do Médio Solimões e Afluentes (UNIPI-MSA) e da Organização dos Povos Indígenas Torá, Tenharim, Mura e Parintintin (OPITTAMP). A escolha das organizações foi realizada com base em um diagnóstico desenvolvido pela Rede APIAM, que identificou aquelas com maior necessidade de fortalecimento institucional e apoio em processos de planejamento, gestão e desenvolvimento organizacional.

Mais do que uma capacitação, a oficina reafirmou um dos pilares da atuação da APIAM: compreender a formação como um processo permanente de fortalecimento institucional das organizações indígenas. Ao investir na qualificação das lideranças, a Rede fortalece sua capacidade de planejamento, gestão, articulação política e construção de parcerias, criando condições para que cada organização desenvolva suas ações de forma mais estruturada e conectada às demandas dos povos que representa.

Durante os dois dias de atividades, os participantes refletiram sobre a trajetória de suas organizações, compartilharam desafios enfrentados nos territórios e construíram, de forma participativa, estratégias para os próximos 12 meses. A programação foi organizada para orientar cada organização na elaboração de um planejamento consistente, contemplando definição de objetivos, metas, atividades prioritárias, cronograma, recursos necessários e possibilidades de articulação com parceiros institucionais. Também foram realizados momentos de autoavaliação, sistematização dos planejamentos, mapeamento de parcerias e compartilhamento de boas práticas entre as organizações participantes.

A metodologia adotada valorizou o diálogo entre as diferentes realidades vividas pelos povos indígenas do Amazonas, permitindo que as organizações compartilhassem experiências, identificassem desafios comuns e construíssem soluções coletivas para fortalecer sua atuação. O intercâmbio entre as lideranças também possibilitou conhecer iniciativas bem-sucedidas desenvolvidas em diferentes territórios, ampliando o repertório de estratégias para gestão organizacional e incidência política.

Para a coordenadora-geral da APIAM, Mariazinha Baré, investir na formação das organizações é fortalecer toda a Rede APIAM, respeitando a diversidade dos povos indígenas e construindo uma atuação coletiva capaz de responder aos desafios enfrentados nos territórios.

“O Amazonas reúne uma enorme diversidade de povos, culturas, línguas e formas próprias de organização. Essa diversidade é uma das maiores riquezas da nossa rede. Quando promovemos espaços de formação como este, fortalecemos cada organização e, ao mesmo tempo, fortalecemos toda a APIAM. É por meio da troca de conhecimentos, da construção coletiva e da unidade na diversidade que conseguimos ampliar nossa capacidade de defender os direitos dos povos indígenas e enfrentar os desafios que surgem em nossos territórios.”

Representantes do Conselho Geral do Povo Sateré-Mawé (CGPSM) durante oficina. (Julho de 2026. Manaus – AM. Foto: Robson Delgado Baré)

Mariazinha destaca que fortalecer as organizações de base significa fortalecer toda a estrutura da APIAM, criando uma rede preparada para dialogar com instituições públicas, organizações parceiras e diferentes espaços de tomada de decisão, sempre respeitando a autonomia e a identidade de cada povo.

A oficina integra as ações de fortalecimento institucional desenvolvidas pela APIAM em parceria com a Nia Tero Brasil, organização que apoia diretamente os núcleos de Formação e de Projetos da articulação. A parceria tem contribuído para ampliar as capacidades das organizações indígenas em áreas estratégicas como planejamento, gestão institucional, elaboração de projetos, captação de recursos e fortalecimento da governança.

Para Nara Baré, diretora da Nia Tero Brasil, fortalecer a APIAM significa fortalecer uma rede que atua diretamente na proteção dos territórios e na garantia dos direitos dos povos indígenas do Amazonas.

“A parceria entre a Nia Tero e a APIAM nasce do entendimento de que organizações indígenas fortes são fundamentais para a proteção dos territórios e para a defesa dos direitos dos povos indígenas. Por isso, apoiamos diretamente os núcleos de Formação e de Projetos da APIAM, buscando contribuir para que as organizações tenham cada vez mais autonomia, capacidade de planejamento, gestão e articulação. Investir na formação das lideranças é investir no fortalecimento de toda a rede.”

Nara Baré, Diretora da Nia Tero Brasil. (Julho de 2026. Manaus – AM. Foto: Robson Delgado Baré)

Também parceira da iniciativa, a Somos Ser contribuiu com a metodologia da oficina e com o processo de identificação das organizações participantes, realizado a partir de um diagnóstico da Rede APIAM que mapeou os diferentes níveis de fortalecimento institucional das organizações de base.

Para Laura Gourgel, da Somos Ser, a definição das organizações participantes buscou direcionar a formação para quem mais necessitava fortalecer processos internos de gestão e planejamento, garantindo que o investimento gerasse impactos concretos na atuação da Rede.

“O diagnóstico realizado junto à Rede APIAM foi fundamental para entendermos as diferentes realidades das organizações e identificar onde havia maior necessidade de fortalecimento institucional. A partir desse levantamento, foi possível selecionar as organizações participantes de forma estratégica, respeitando suas especificidades e construindo uma formação alinhada aos desafios que cada uma enfrenta. Nosso objetivo foi contribuir para que essas organizações saíssem mais preparadas para planejar, gerir suas ações e ampliar sua capacidade de incidência nos territórios.”

Entre os participantes, a avaliação foi de que a oficina proporcionou ferramentas práticas que poderão ser aplicadas diretamente na rotina das organizações, contribuindo para melhorar processos internos, organizar prioridades e ampliar a participação das comunidades nas decisões.

Representando a União dos Povos Indígenas Munduruku e Sateré-Mawé (UPIMS), Jussara Munduruku destacou que a formação representa um passo importante para consolidar o trabalho coletivo desenvolvido pela organização.

“Essa formação é muito importante para fortalecer a estrutura da nossa organização. Aprendemos formas de planejar melhor, organizar nossas atividades e pensar estrategicamente o futuro. Tudo o que aprendemos aqui será levado para nossa equipe e compartilhado com outras lideranças, para que esse conhecimento fortaleça todo o coletivo e contribua para melhorar o trabalho que realizamos junto às comunidades.”

Segundo ela, um dos principais resultados da oficina é a possibilidade de multiplicar os conhecimentos adquiridos, garantindo que os aprendizados não permaneçam apenas com os participantes, mas cheguem às bases e fortaleçam outras lideranças indígenas.

Participantes da Oficina de Planejamento Organizacional da APIAM. (Julho de 2026. Manaus – AM. Foto: Robson Delgado Baré)

O coordenador da Organização dos Povos Indígenas Torá, Tenharim, Mura e Parintintin (OPITTAMP), Walmer Mura, também ressaltou a importância da formação para qualificar a gestão organizacional e ampliar a capacidade de diálogo com instituições e parceiros.

“Saio desta oficina com uma visão muito mais clara sobre planejamento e gestão. Aprendemos estratégias importantes para organizar nossas ações, definir prioridades e compreender melhor como dialogar com parceiros e construir relações institucionais que contribuam para fortalecer nossa organização. Agora nosso compromisso é levar esse conhecimento para a equipe e colocar em prática tudo o que foi construído aqui.”

Além da elaboração dos planejamentos institucionais, a oficina proporcionou momentos de integração entre as organizações da Rede APIAM, fortalecendo vínculos, incentivando a cooperação entre os diferentes povos indígenas e consolidando uma agenda comum de fortalecimento organizacional.

Ao final da formação, cada organização saiu com um plano de ação construído de forma participativa, contendo objetivos, resultados esperados, atividades prioritárias, cronograma de execução, identificação de recursos e estratégias para ampliar parcerias ao longo dos próximos 12 meses. Esse planejamento servirá como instrumento para orientar as ações das organizações em seus territórios, contribuindo para uma atuação mais organizada, eficiente e alinhada às necessidades das comunidades indígenas.

 

Sobre a Nia Tero e o CiPO

A Nia Tero é uma organização global que trabalha em solidariedade com povos indígenas e seus aliados para proteger territórios ancestrais, fortalecer culturas vivas e contribuir para um planeta saudável e habitável. Suas parcerias são construídas com base na autodeterminação indígena, na confiança mútua e na reciprocidade.

O Ciclo de Planejamento e Operações (CiPO) é um programa da Iniciativa Amazônia da Nia Tero que apoia organizações indígenas parceiras na consolidação de práticas de gestão e planejamento. Em colaboração com organizações da sociedade civil, o programa oferece formação, mentoria e ferramentas adaptadas às realidades locais, contribuindo para fortalecer capacidades organizacionais e ampliar a autonomia das instituições participantes. No Brasil, o programa conta com a parceria da .SER, que atua diretamente junto com a Nia Tero no apoio às organizações envolvidas nesse apoio.

Leia mais

Trabalho análogo à escravidão ainda atinge milhares no Brasil e exige atenção nas comunidades indígenas

Apesar de avanços na legislação e na fiscalização, o Brasil ainda enfrenta uma realidade preocupante: milhares de pessoas continuam vivendo em condições de trabalho análogo à escravidão. Muitas delas sequer reconhecem que estão sendo exploradas, o que torna o problema ainda mais invisível e difícil de combater. Esse tipo de

Funai avança no reconhecimento da Terra Indígena Ararà no Território Wayamu

Publicação do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) da TI Ararà é um passo importante no reconhecimento dos direitos territoriais dos povos indígenas do Baixo Jatapu Texto: Assessoria de comunicação Instituto Iepé A presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joênia Wapixana assinou, nesta quarta-feira (25/3) o Relatório

APIAM abre Plantão de Projetos para apoiar lideranças e organizações indígenas na elaboração de iniciativas

A Gerência de Projetos da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM) está lançando um Plantão de Projetos voltado para organizações indígenas, lideranças, jovens, comunicadores e coletivos que desejam desenvolver ou fortalecer iniciativas em seus territórios. Muitas vezes, existem boas ideias para fortalecer o território, a cultura, a