Aconteceu em Manaus, na Fazenda Experimental da Universidade Federal do Amazonas (Faexpe – UFAM), durante os dias 20 a 23 de julho, o 1º Encontro Estadual das Juventudes Indígenas do Amazonas, promovido pela Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (APIAM) e organizações indígena do estado, como: Juventude Munduruku do Amazonas (Jumam), Rede de Estudantes Indígenas do Vale do Javari (Reivaja), Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas – Makira E’ta, Coordenação das Organizações e Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime). Reunindo mais de 50 jovens, lideranças, comunicadores, pesquisadores e representantes das 17 sub-regiões indígenas do estado para fortalecer a organização das juventudes e construir estratégias em defesa dos territórios, dos direitos e do bem viver dos povos indígenas.
O encontro consolidou um importante marco para o movimento indígena amazonense ao reafirmar o protagonismo das juventudes como sujeitos políticos fundamentais na construção do presente e do futuro dos povos indígenas.
“A juventude tem um papel fundamental para impulsionar as pautas da APIAM e fortalecer a nossa organização em todo o estado. Precisamos garantir que nossos jovens estejam preparados para ocupar os espaços de decisão, defender seus territórios e dar continuidade à luta dos nossos povos, sempre respeitando os ensinamentos dos nossos ancestrais. ” – Mariazinha Baré, coordenadora-geral da APIAM
Memória ancestral e fortalecimento das juventudes

A programação teve início com um momento dedicado ao fortalecimento da memória, da identidade e da organização política das juventudes indígenas. Pela manhã, a Roda de Memória Ancestral reuniu Rosemeire Arapaço, vice-coordenadora da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas – Makira E’ta, e Ismael Tariano, duas importantes lideranças históricas do movimento indígena, que compartilharam a trajetória de organização dos povos indígenas no Amazonas, na Amazônia e no Brasil.
À tarde, o painel “Experiências exitosas das juventudes indígenas” reuniu Raquel Wapichana, do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Jucymeire Tariano, coordenadora do Departamento de Juventude Indígena do Rio Negro, e Ewerton Marubo, da Rede dos Estudantes Indígenas do Vale do Javari, que apresentaram iniciativas voltadas ao fortalecimento da participação juvenil em seus territórios.
Outro momento importante foi a construção do Mapa Vivo das Juventudes Indígenas do Amazonas, espaço que reuniu as realidades, desafios e propostas das 17 sub-regiões, fortalecendo a articulação entre as juventudes do estado.
Entre as conquistas celebradas durante o encontro, foi anunciado que a Coordenação das Organizações e Povos Indígenas de Manaus e Entorno conquistou uma cadeira titular no Conselho Estadual da Juventude, representada por Felipe Baré, tendo Lauryane Kokama como suplente.
“Pensamos este encontro de forma coletiva, ouvindo as diferentes realidades das juventudes das regiões do Amazonas. Os temas foram escolhidos porque refletem as principais demandas dos jovens indígenas hoje, como comunicação, formação política, educação, saúde, mudanças climáticas e participação nos espaços de decisão.” – Lucas Marubo, comissão de organização do encontro
Comunicação, justiça climática e formação política
O segundo dia foi dedicado ao fortalecimento das juventudes indígenas por meio da comunicação, da formação política e da incidência nos espaços de decisão.
A oficina de Estratégias de Mobilização e Comunicação destacou o papel da comunicação indígena como ferramenta de resistência, mobilização social e defesa dos territórios. Comunicadores indígenas compartilharam experiências sobre produção de conteúdo, fortalecimento das redes do movimento indígena e atuação das juventudes na proteção da Amazônia.
Na sequência, os debates abordaram os impactos da crise climática sobre os territórios indígenas e a importância da participação das juventudes na formulação de políticas públicas voltadas à justiça climática.

A programação também promoveu a formação política “O Futuro é Ancestral”, discutindo direitos indígenas, organização coletiva, enfrentamento ao marco temporal e a ocupação dos espaços de decisão pelas juventudes.
Encerrando o dia, a mesa “Aldear a Política” refletiu sobre representação indígena, autonomia dos povos, participação das mulheres e das juventudes e a construção de um projeto político fundamentado nos territórios.
“Quando as juventudes se encontram, compartilham suas experiências e constroem propostas em conjunto, fortalecem não apenas suas organizações, mas também seus territórios. Esse espaço nos une e fortalece nossa caminhada coletiva. ” – Jucymeire Tariano
Educação, universidade indígena e saúde
O terceiro dia reuniu especialistas, pesquisadores e lideranças indígenas para discutir educação superior, políticas afirmativas e saúde indígena.
A mesa “Políticas Afirmativas e Universidade Indígena: da reivindicação histórica à implementação”, conduzida por Gileandro Kaiowá, Seribi Tukano e Gersem Baniwa, com mediação de Izabel Munduruku, destacou os desafios para ampliar o acesso e a permanência dos povos indígenas no ensino superior, além da importância da criação da Universidade Indígena como um projeto construído pelos próprios povos.
Durante a tarde, o painel “Saúde Indígena, Saúde Mental e Formação de Profissionais Indígenas” reuniu Erick Mura, Alícia Cacau Kokama, Jhonatan Muypurá e Hebert Baniwa para debater o fortalecimento da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, a valorização dos saberes tradicionais, a formação de profissionais indígenas e os desafios relacionados à saúde mental e à prevenção ao suicídio entre jovens indígenas.
“Foi muito importante debater temas que fazem parte da realidade da juventude indígena. Precisamos discutir educação, saúde, participação política, comunicação e tantos outros assuntos que impactam diretamente a vida dos nossos jovens e o futuro dos nossos povos. ”– Dirley Mura
Juventudes organizadas para o futuro
O último dia foi marcado pela aprovação de instrumentos que consolidam a organização das juventudes indígenas dentro da APIAM.
Entre os principais resultados estão a aprovação do Regimento Interno do Departamento das Juventudes, a pactuação do Plano de Atuação, a aprovação do Documento Político e da Carta Política, além da criação da Rede Estadual das Juventudes Indígenas do Amazonas e da eleição da representação do Departamento das Juventudes.

As deliberações fortalecem a participação permanente das juventudes na estrutura organizativa da APIAM e reafirmam o compromisso com a defesa dos direitos indígenas, da autonomia dos povos e dos territórios tradicionais.
“Este encontro é resultado de uma construção coletiva, feita com muito diálogo entre a APIAM, as organizações de base e as próprias juventudes. Ver tantos jovens se mobilizando, viajando de diferentes regiões e participando ativamente dos debates demonstra o compromisso desta geração com a defesa dos seus povos e territórios” – Eliomar Tukano, coordenador-secretário da APIAM e coordenador do encontro.
Ao final do encontro, a APIAM agradeceu a participação das juventudes indígenas, lideranças, organizações de base e instituições parceiras que contribuíram para a realização do evento, reforçando que este representa um marco histórico na consolidação do protagonismo das juventudes indígenas do Amazonas e na construção de um movimento cada vez mais articulado, fortalecido e comprometido com o futuro dos povos indígenas.
O encontro foi realizado através de financiadores como: Unicef, Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Operação Amazônia Nativa (OPAN), Distritos Sanitários Especiais Indígenas de Manaus (DSEI-Manaus), Fundação Estadual dos Povos Indígenas do Amazonas (Fepiam), Caritas, Amazon Conservation Team Brasil (ACT), Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena do Amazonas (Foreeia), Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista (Seta), The Nature Conservancy (TNC), Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), Instituto Witoto, Mãos Unidas e Dreikonigsaktion.